MOTE ALHEIO
Perdigão perdeu a pena,
Não há mal que lhe não venha.
VOLTAS
Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.
Quis voar a uma alta tôrre,
Mas achou-se desasado;
E vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.
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segunda-feira, 6 de abril de 2009
quinta-feira, 26 de março de 2009
Soneto de Camões para hoje
Coitado! que em um tempo choro e rio;
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
De uma cousa confio e desconfio.
Avôo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.
Qu'ria, se ser pudesse, o impossível;
Qu'ria poder mudar-me, e estar quêdo;
Usar de liberdade e ser cativo;
Queria que visto fôsse, e invisível;
Qu'ria desenredar-me, e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!
Luís Vaz de Camões (1524/25? - 10/06/1580). À medida do possível, este blog estará publicando a lírica de Camões, principalmente versos poucos difundidos pela internet, caso das redondilhas, sextinas, cantigas e até mesmo sonetos, como este que apresentamos.
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
De uma cousa confio e desconfio.
Avôo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.
Qu'ria, se ser pudesse, o impossível;
Qu'ria poder mudar-me, e estar quêdo;
Usar de liberdade e ser cativo;
Queria que visto fôsse, e invisível;
Qu'ria desenredar-me, e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!
Luís Vaz de Camões (1524/25? - 10/06/1580). À medida do possível, este blog estará publicando a lírica de Camões, principalmente versos poucos difundidos pela internet, caso das redondilhas, sextinas, cantigas e até mesmo sonetos, como este que apresentamos.
quarta-feira, 25 de março de 2009
Um pouco de Camões para começar o dia

Mote
Não sei se me engana Helena,
Se Maria, se Joana;
Não sei qual delas me engana.
Voltas
Uma diz que me quer' bem,
Outra jura que mo quere;
Mas em jura de mulher
Quem crerá, se elas não crêem?
Não posso, não, crer a Helena,
A maria, nem Joana:
Mas não sei qual mais me engana.
Uma faz-me juramentos
Que só meu amor estima;
A outra diz que se fina;
Joana, que bebe os ventos.
Se cuido que mente Helena,
Também mentirá Joana;
Mas quem mente não me engana.
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