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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A tragédia particular que chega aos nossos lares

Dizem que a coisa começou lá com os gregos e ganhou força sobremodo com os romanos: nosso gosto por tudo quanto possa ser considerado dramático. Por herança, além das línguas românticas (Português, Francês, Italiano, etc), herdamos em nosso sangue latino a paixão, esta capacidade de sofrer, que nada mais é do que tocar a vida adiante sem muita lucidez e afastados da razão. Por isso, amamos a tragédia e a comédia. Por isso, endeusamos nossos atores, artistas e perdemos tempo em frente à TV vendo novelas, programas de humor e filmes. Porém, nosso pão e circo têm lá suas limitações. O pão sempre foi pouco. No circo TV, os autores debatem-se para descobrir uma nova fórmula em suas ficções esgotadíssimas em qualidade e criatividade, que determinam a constante queda de audiência dos novelões, repetidos em forma, esquetes e tipos. Nessa crise de criatividade ficcional, o que nos sobra é apelar para a tragédia ou comédia real e se possível dramas particulares eivados de irracionalidade e estupidez, como se isso nunca tivesse feito parte da condição humana. A criança arremessada pela janela por um casal e agora a moça seqüestrada e morta pelo namorado são seqüências de uma mesma história de horror televisiva. Na comédia real, votamos em candidatos engraçados e estúpidos para assim garantirmos o riso extra. Na tragédia real, colocamos entre os atributos da notícia a capacidade dela tornar-se um drama desenvolvido em capítulos desconexos, porque a realidade não nos parece conexa. A paixão levada do privado para o público, do particular para o coletivo. Mas nada disso é novo, apenas usamos novas formas para espalhar o boato, a notícia nos modernos meios eletrônicos, em escala, velocidade e alcance, antes inimagináveis. Na verdade, estamos dando nova roupa ao velho fuxico de cerca de nossos avós, quando tudo era contado de ouvido para ouvido. Temos dois mil anos de desenvolvimento da técnica que culminou na Sociedade da Informação, rápida, global e eficiente. Dois milênios usando todo nosso gênio para que lembremos em instantes que, sob os efeitos da paixão, não somos diferentes dos nossos semelhantes que habitavam as cavernas: estúpidos e desgraçadamente animais.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Doente mental não é respeitada pela Globo


Uma mãe mata uma criança de oito meses. A mãe, visivelmente sofrendo de distúrbios mentais, foi entrevistada hoje pela Globo, em Curitiba. A reportagem foi ao ar pela manhã, enquanto boa parte dos paranaenses tentava engolir o pão nosso de cada dia.

Os fatos e a notícia

Ontem, uma mulher arremessou uma criança pela janela do sexto andar de um prédio no centro de Curitiba. A criança era a filha da mulher e morreu. A mulher tem 41 anos e notoriamente passa por crise depressiva, estava em tratamento psiquiátrico, inclusive usava medicamentos. Havia informações suficientes de vizinhos e conhecidos da mulher que atestavam o desequilíbrio dela.
Portanto, dentro dos critérios que se pode aprender em qualquer curso por correspondência de Jornalismo, os fatos citados devem ser guindados à categoria de notícia. Todavia, de que tamanho e com qual destaque?

Da natureza
Em alguns cursos de Jornalismo as seguintes cadeiras nunca constaram ou foram suprimidas da grade ou ainda têm seus programas apenas focados na superficialidade e teorias inúteis:

História
Antropologia
Direito
Psicologia
Psiquiatria

Por isso, a maioria dos jornalistas tem dificuldades em saber que, embora bárbaros, o infanticídio, o parricídio, o matricídio e suas combinações estão assinalados em praticamente todas as culturas.

Na mitologia, Medéia matou seus dois filhos por ciúme. Nos livros sagrados de várias religiões encontramos a imolação de crianças. Na China crianças do sexo feminino são descartadas. Em tribos africanas e de índios do Brasil ainda é comum o descarte de filhos indesejados.

Portanto, em pelo 4 mil anos de história registrada, constata-se que esses crimes (ou atos aceitos) estão relacionados a tradições culturais, religiosas, questões econômicas ou transtornos mentais.

Pela nossa legislação, pessoas que praticam tais crimes sob efeito destes transtornos têm suas penas atenuadas ou simplesmente são consideradas inimputáveis.

(Inimputável - É a pessoa que cometeu uma infração penal, porém, no momento do crime, era inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determina-se de acordo com esse entendimento. São considerados inimputáveis os doentes mentais ou a pessoa que possua desenvolvimento mental incompleto ou retardado, e os menores de dezoito anos.)

Do exagero e busca pelo sensacional

Logo, expor uma mulher com transtornos psíquicos numa entrevista pode revelar:

- apelo ao sensacionalismo; desejo de juntar esta história a uma outra de natureza bem diferente, o caso Isabela - que guardam em comum apenas a criança, o prédio, a janela, além da guerra pela audiência e exploração da ignorância;

- ou ainda desconhecimento, ou burrice mesmo.

De fato, a notícia existe e merece ser dada.
Porém, o que não pode existir é esta exploração gratuita da tragédia alheia em nome de pretenso jornalismo que vê novidade naquilo que acontece há milênios.
Ó arautos da objetividade e idiotice, lembrai-vos: somos seres guiados por uma máquina sensível chamada cérebro e esta máquina pode falhar, independentemente das cabeças que as guardam, inclusive as vossas!
(Ilustração: Medéia por Delacroix)

Clique aqui e veja se havia necessidade de mostrar a entrevista da mulher que cometeu o crime.